Eu me Lembro

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Por Livia G. Gerardi

Eu não me lembro de muitos dos aniversários da minha mãe. Na verdade eu nem lembrava que nós fomos ao México uma vez para comemorar. Eu não lembrava que ela faria 43 anos este ano. Eu não lembro da voz dela ou de todo o seu rosto. Eu não lembro muito.

Mas eu me lembro dela.

Eu me lembro que ela quase sempre estava sorrindo. Eu lembro que ela tinha um lugar especial no sofá e que ela nunca deixava ninguém usar quando ela estava lá. Eu me lembro do vídeo que ela me mostrava no celular quando ela escovava meus cabelos. Eu lembro quando ela me ensinou a levantar uma sobrancelha. Eu lembro quando ela dirigiu até a escola com apenas meia-hora de aviso para levar uma roupa para eu me apresentar no concurso de talentos. Eu me lembro quando ela acidentalmente começou a bater palmas na minha apresentação na escola, e como ela me fez repetir tudo em casa para que ela pudesse bater palma na hora certa. Eu me lembro quando ela apareceu na escola de cadeira-de-rodas porque ela sabia que eu ia ganhar um prêmio naquele dia.

Eu me lembro quando ela disse, brincando, que se estivesse grávida com mais de um bebê, que ela iria me buscar na escola, e da sua cara de derrota quando minha irmã e eu saímos pela porta da escola com meu pai rindo atrás. Eu lembro quando ela me fez prometer que eu usaria os cremes caros que eu implorei que ela comprasse. Também me lembro que ela não ficou brava quando eu não usei. Eu lembro quando ela assistia, com atitude positiva, os vídeos de música que eu a obrigava a assistir. Eu me lembro como ela e meu pai assistiam TV na sala, à noite, e como ela me pegava tentando assistir com ela e me fazia voltar para a cama. Eu me lembro dos beijos no rosto e de segurar na sua mão.

Eu lembro da linha formada pelos pontos na cabeça após a cirurgia. Eu lembro das lágrimas escorrendo no rosto dela quando ela nos contou que tinha câncer. Eu me lembro da alegria nos seu olhos quando ela nos disse que estava grávida novamente. Eu me lembro que ela cantava a música “O que não mata te deixa mais forte” no carro comigo, e como ela dizia que essa música a descrevia. Como eu gostaria que ela estivesse certa.

Eu não lembro muito, mas eu lembro o suficiente.

Eu sei a agonia que senti escrevendo cada uma dessas frases, sabendo que nunca mais vou poder ter uma nova memória com ela. Mas eu também sei a alegria que eu senti em cada um desses momentos. Eu sei o quanto minha mãe estaria feliz de saber que encontramos uma maneira de continuar vivendo as nossas vidas, e o alívio que ela sentiria se soubesse que ela passou cada dia da sua vida fazendo a vida de outras pessoas melhor.

Feliz aniversário, mamãe, eu desejo que você tivesse vivido para ver o 43.